O ADEUS À INFÂNCIA
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Dizer um "adeus à infância" não significa esquecer de onde viemos, mas encarar o ato mais doloroso e libertador da maturidade: enterrar a fantasia de que ainda podemos consertar o passado ou receber o amor que nunca existiu. Em tempos de barulho eleitoral e silenciamento das dores profundas, como a ideologia do sucesso e a positividade forçada nos aprisionam na infância negada? Por que o verdadeiro luto emocional é a única saída contra a depressão e o suicídio? Encerramos o Setembro Amarelo decifrando o passo decisivo para reconquistar a dignidade e a coragem de viver a nossa realidade. Sem os pesadelos e traumas da nossa infância negada.
Chegamos ao último dia de setembro. Enquanto as redes sociais e os palanques públicos são engolidos pela disputa eleitoral e pela propaganda partidária, o Setembro Amarelo encerra-se com uma presença tímida, quase restrita à bravura cotidiana dos profissionais nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos CRAS e nos CAPS. O debate público perde, assim, a chance de cobrar dos futuros governantes o que é verdadeiramente preventivo: o investimento prioritário na atenção psicossocial básica, em políticas de suporte integral às famílias e na estruturação de redes de apoio que impeçam a violência invisível contra a infância.
O descaso com a saúde mental, no entanto, não é um acidente; é reflexo da estrutura socioeconômica em que estamos submersos. Vivemos sob uma cultura neoliberal que premia e valida traços nitidamente narcisistas: a hipercompetitividade, a autoimagem de invulnerabilidade, o individualismo desmedido e o culto à performance sem descanso. Nesse sistema, admitir o esgotamento, expor a dor psíquica e buscar ajuda são tratados como falhas ou sinais de fraqueza. As abordagens hegemônicas respondem a esse abismo com positividade tóxica e slogans motivacionais vazios, culpabilizando o sujeito em crise por não ser "resiliente o suficiente" e ignorando a profundidade do sofrimento humano.
Em O Drama da Criança Bem Dotada, Alice Miller adverte com veemência que ninguém se cura de um sofrimento psíquico severo por meio de cobranças morais, frases de efeito ou fingindo que "está tudo bem". O discurso sobre "amor incondicional", comum em campanhas superficiais, é uma necessidade vital e legítima apenas do bebê nos primeiros estágios da vida; no mundo adulto, exigir que as relações sejam puras, incondicionais e isentas de atritos gera hipocrisia, amordaça queixas legítimas e adoece os vínculos. Embora reações violentas não sejam o caminho, a autocrítica, a exigência de respeito mútuo, as reparações lúcidas e o estabelecimento de limites éticos firmes são indispensáveis para construirmos relações reais e saudáveis. A recuperação da saúde mental não nasce da idealização cega da família ou do perdão apressado imposto por conveniência moral, mas da coragem de enxergar os fatos e as negligências exatamente como aconteceram.
Essa transição entre a dor da perda e a maturidade ganhou contornos vivos em um diálogo recente com meu filho, no último final de semana em que estive com ele, ao nos prepararmos para dormir. Inesperadamente, ele perguntou, provavelmente movido pelo medo da finitude, se as pessoas podem voltar depois que morrem. Respondi que não e perguntei a razão daquela dúvida. Ao olhar para ele, vi seus olhos marejados; com a voz embargada, confessou que queria que o papai e a mamãe voltassem, pois não queria ficar sem nós. Em vez de recorrer a fábulas evasivas ou desdenhar de sua aflição, olhei em seus olhos e com os meus também já em lágrimas, lhe disse a verdade: não há retorno físico, mas que ele não precisava temer o desamparo. Expliquei-lhe que, assim como eu cresci e aprendi a viver em paz após a partida dos meus próprios pais, ele também se desenvolveria, ganharia raízes próprias e saberia caminhar com sua própria família no futuro, cuidando e amando a quem estivesse ao seu lado quando chegasse a hora de o papai e/ou a mamãe partirem. Ao ter seu choro e seu medo acolhidos sem censura, o menino pôde respirar aliviado.
Permitir que uma criança viva suas incertezas e sinta o peso da realidade sem ser violentada por mentiras é o que lhe dá a estrutura necessária para, no futuro, conseguir dizer adeus à infância sem perder o chão sob os pés.
A verdadeira libertação do ciclo de depressão crônica, desolação e impulsos autodestrutivos exige atravessar o processo de luto. O luto aqui não é a perda física de alguém, mas a renúncia à ilusão: é o adeus definitivo àquela infância imaginária que nunca aconteceu e na qual não é mais possível viver. Significa chorar a dor da criança desamparada de outrora, enlutar a ausência de cuidadores empáticos que estivessem emocionalmente disponíveis e aceitar que o tempo pretérito é irreversível. Nenhum aplauso profissional, nenhum acúmulo material e nenhum parceiro amoroso no presente pode preencher o espelho materno ou paterno que faltou no início da vida. Quando o adulto desiste de mendigar esse reconhecimento infantil e suporta a dor desse vazio histórico, ele quebra os grilhões da aprovação externa e conquista sua própria sustentação interna.
Alexander Lowen, em Narcisismo: Negação do Verdadeiro Self, complementa essa emancipação ao defender o resgate da dignidade e do enraizamento (grounding). Recuperar o respeito próprio significa desarmar as couraças musculares, honrar a verdade das próprias sensações corporais, aceitar os limites biológicos e trocar a busca neurótica por poder, controle e validação de imagem pelo prazer genuíno de estar vivo e conectado com a realidade.
Prevenir o suicídio e promover a saúde mental exige uma ética da verdade. Dar o adeus à infância idealizada é o passo mais maduro da existência. Viver com sentido não é construir uma muralha impermeável a erros, mas bancar a vulnerabilidade de existir por inteiro — sem máscaras, com a sobriedade das dores integradas e com a vitalidade de quem finalmente tomou posse da própria história.
NOTA EDITORIAL
Este artigo conclui a série temática especial de 4 publicações do blog para o Setembro Amarelo, na qual resgatamos o pensamento crítico de Alice Miller (O Drama da Criança Bem Dotada) e Alexander Lowen (Narcisismo: Negação do Verdadeiro Self) para superar discursos superficiais sobre o sofrimento psíquico. Nas próximas semanas, abriremos uma nova série temática de debates com foco nas raízes sociais e pedagógicas da crise na educação.
ADVERTÊNCIA E AVISO DE SAÚDE MENTAL
Este artigo tem finalidade estritamente reflexiva, educativa e de fomento ao autoconhecimento e ao pensamento crítico. Ele não substitui, em nenhuma hipótese, o diagnóstico, a avaliação clínica ou o acompanhamento psicológico, psicanalítico ou psiquiátrico. Caso você ou alguém próximo esteja vivenciando sofrimento emocional intenso, sentimentos de vazio crônico ou ideação autodestrutiva, busque auxílio profissional especializado.
Onde buscar apoio e acolhimento gratuito:
Centro de Valorização da Vida (CVV): Atendimento gratuito, confidencial e 24 horas por dia por telefone discando 188, ou via chat e e-mail no site oficial cvv.org.br.
Rede de Atenção Psicossocial em Parnamirim/RN:
CAPS II (Centro de Atenção Psicossocial Adulto): Rua Sargento Amor Divino, 13 – Centro, Parnamirim/RN. Atendimento de segunda a sexta-feira, das 07h às 17h.
CAPS AD (Álcool e Outras Drogas): Estrada para Cajupiranga, 1550 – Liberdade, Parnamirim/RN. Telefone: (84) 3645-8511.
CAPS Infantil (CAPS i): Rua Padre João Maria, 09 – Vale do Sol, Parnamirim/RN. Telefone: (84) 3645-6256.
Unidades Básicas de Saúde (UBS): Procure a unidade de saúde do seu bairro para acolhimento inicial e encaminhamento na rede municipal.
Tradução em Libras: Use o tradutor V-Libras no canto da tela para ver o conteúdo na Língua Brasileira de Sinais.
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