DEMOCRACIA E ELEIÇÕES
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A ilusão mais bem arquitetada da modernidade capitalista foi fazer o oprimido acreditar que o ato mecânico de votar é o ápice de sua liberdade. Ao confundir deliberadamente o processo eleitoral com a verdadeira democracia, o sistema blinda os interesses das elites e transforma o Estado em um balcão de negócios privado, enquanto a classe trabalhadora paga a conta com a própria miséria.
A investigação filosófica sobre a política nos obriga a romper com as aparências do discurso institucional e cavar as fundações materiais da sociedade. Democracia e eleições, longe de serem sinônimos ou conceitos harmônicos, habitam uma contradição dialética histórica profunda. A democracia, em seu horizonte filosófico originário, evoca a emancipação, a soberania e o autogoverno real da coletividade. Já as eleições contemporâneas consolidaram-se como um fetiche jurídico e técnico, um verniz de legitimidade desenhado para que a classe dominante selecione, periodicamente, quais gerentes administrarão a máquina do Estado burguês para garantir a perpetuação da acumulação de riquezas.
Para compreender a raiz dessa fratura, é preciso resgatar a experiência histórica onde esses conceitos foram forjados. Na antiga Grécia, especificamente no apogeu de Atenas, a democracia afirmava-se sob a lógica da participação direta. Os cidadãos não delegavam seu poder de decisão; eles próprios ocupavam a ágora (a praça pública que funcionava como o espaço central de debates, formulação de leis e deliberações políticas da cidade) para decidir os rumos da pólis (a cidade-estado grega, que compreendia a comunidade de cidadãos e o seu território). Naquele ecossistema primitivo, a escolha para a esmagadora maioria dos cargos públicos não se dava pelo voto — visto pelos gregos como um mecanismo aristocrático, que naturalmente favorecia os mais ricos e influentes —, mas sim pelo sorteio e pelo rodízio. O pressuposto era radical: qualquer cidadão, independentemente de sua linhagem ou patrimônio, possuía a dignidade e a capacidade de governar.
Essa radicalidade democrática da ágora sofreu ataques severos do pensamento idealista da própria antiguidade. O filósofo Platão, em sua célebre alegoria do navio na obra A República, argumentava que a política deveria ser tratada como uma arte técnica superior. Para Platão, deixar o destino da cidade nas mãos de uma maioria sem instrução teórica seria o equivalente a entregar o timão de um navio em alto-mar a uma tripulação rebelde e ignorante em astronomia e navegação, em detrimento de um piloto qualificado. Platão abria caminho para a tese do "rei-filósofo", defendendo que o governo deveria ser monopólio daqueles que alcançaram a contemplação da ideia de Justiça. No entanto, o erro do idealismo platônico — e que se repete nas democracias liberais de hoje — foi desconsiderar que a política não é um campo abstrato de ideias puras, mas um reflexo direto da estrutura econômica. A pólis ateniense desmoronou não pela "ignorância" do povo, mas porque sua base material estava assentada sobre o modo de produção escravista, uma contradição de classes inconciliável que limitava o título de cidadão a uma minoria privilegiada.
Com a ascensão da burguesia e a consolidação do modo de produção capitalista na modernidade, a engenharia política operou uma mutação perversa. O conceito de democracia foi esvaziado de seu caráter direto e transformado em democracia representativa. Sob essa nova lógica, o povo foi alienado do exercício do poder. Criou-se a ilusão de que, ao transferir a soberania por meio do voto a um representante na farsa eleitoral, o cidadão estaria exercendo sua liberdade. Na realidade material, as eleições tornaram-se o mercado da política. O controle das massas hoje não necessita apenas da força bruta do antigo capataz; ele se sofistica através do controle ideológico e da rejeição deliberada à forma filosófica e crítica de pensar.
O cenário que observamos em municípios como Parnamirim é a expressão viva dessa degeneração. A máquina eleitoral foi sequestrada pelo poder econômico e pela indústria da propaganda, transformando o sufrágio em um espetáculo de marketing. Para que a elite burguesa enriqueça e mantenha o controle de forma desproporcional, a maioria da população trabalhadora precisa ser mantida em um estado permanente de vulnerabilidade social, precarização material e alienação intelectual. O "cabresto moderno" opera por meio da violência econômica: utiliza-se o medo do desemprego, da fome e da miséria para encurralar a consciência de funcionários terceirizados e comissionados. O emprego deixa de ser um direito garantido pela força de trabalho para se tornar um favor político que exige submissão eleitoral. A atual gestão municipal personifica essa hipocrisia, pois adota uma roupagem estética de "humanização e acolhimento" nas redes sociais, enquanto mantém intacto nos bastidores o chicote da economia política herdado do coronelismo do passado.
Diante desta farsa institucional, qual deve ser a postura da classe trabalhadora? A resposta filosófica e materialista nos afasta da passividade e nos empurra para a ação. A solução não virá dos aparelhos ideológicos de dominação do Estado, como a educação formal burguesa, moldada para domesticar os corpos e mentes para o mercado de trabalho, apenas respondendo ou assinalando a questão correta e que gera o índice. A libertação exige uma práxis (a união indissociável e dialética entre a teoria crítica e a ação prática transformadora) revolucionária. O trabalhador precisa compreender que ele é o único produtor real de toda a riqueza da sociedade e que, portanto, a ele pertence a soberania absoluta sobre o destino do seu trabalho e da sua cidade. É preciso ocupar a linha de combate na luta de classes, organizando a resistência popular a partir das periferias, construindo redes de educação informal, mídias independentes e canais autônomos de conscientização crítica que desarmem a chantagem das elites e barrem o avanço do reacionarismo e do neofascismo bolsonarista.
É com este compromisso histórico que este blog se consolida como uma trincheira de desalienação e agitação política. Não possuímos qualquer rabo preso, dependência ou subordinação financeira e política a partidos, oligarquias ou grupos econômicos; nossa base de sustentação é o estudo técnico, sociológico e o materialismo dialético (o método filosófico marxista que compreende a realidade a partir das contradições materiais e históricas). Esta é uma operação independente e sem fins lucrativos, que repudia a politicagem rasteira dos conchavos de cúpula. Defendemos a liberdade de expressão não como uma abstração jurídica liberal, mas como uma ferramenta de emancipação intelectual para construir uma coesão revolucionária capaz de destruir o balcão de negócios do capital e erguer um verdadeiro poder popular, feito por trabalhadores e para trabalhadores.
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