EDUCAÇÃO EM PARNAMIRIM: ESCOLAS CÍVICO-MILITARES E RESULTADOS.
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Enquanto a Secretaria de Educação de Parnamirim orienta sua gestão pela obsessão em torno de índices do Ideb e Saeb, a realidade material impõe um questionamento urgente: até que ponto testes padronizados refletem a emancipação real das famílias periféricas? Em paralelo a essa visão gerencialista, a herança autoritária das escolas cívico-militares cobra uma fatura pesada da atual administração Nilda. Ao atropelar a gestão democrática para sustentar uma bandeira ideológica, o município, na gestão anterior, descumpriu as condicionalidades do Fundeb (VAAR), gerando prejuízo orçamentário milionário e entregando estagnação nas salas de aula.
A fixação da atual gestão educacional de Parnamirim em torno de índices de desempenho, como o Ideb, o Saeb e avaliações diagnósticas de rede, reflete uma tendência tecnocrática que precisa ser confrontada pelo materialismo histórico. A mensuração da aprendizagem e o acompanhamento cognitivo possuem relevância instrumental, mas a elevação numérica de uma média em testes padronizados não se traduz, automaticamente, na superação das vulnerabilidades socioeconômicas que assolam o cotidiano dos alunos e alunas da classe trabalhadora. A própria mecânica do Novo Fundeb, por meio das complementações do VAAR (Valor Aluno Ano Resultado) e do VAAT (Valor Aluno Ano Total), reconhece que as desigualdades educacionais estão atreladas ao nível socioeconômico dos estudantes e às condições materiais de vida de suas famílias. Tratar o resultado do exame como um fim em si mesmo mascara a necessidade de políticas públicas estruturantes e intersetoriais de assistência, moradia, trabalho e renda, reduzindo a complexidade social a um gráfico de metas estatísticas.
É dentro dessa mesma lógica de mistificação que se insere o projeto de militarização da educação pública em Parnamirim. Propagandeadas pela extrema-direita como modelo de excelência, disciplina e superação de problemas pedagógicos, a Escola Municipal Manoel Vicente de Paiva e a Escola Municipal Senador Carlos Alberto de Souza expõem a farsa do discurso da ordem. Em vez de avanços, a opção por uma tutela autocrática rompeu com os pilares constitucionais da gestão democrática e da escolha participativa de diretores, violando frontalmente a Condicionalidade I do VAAR, prevista no artigo 14 da Lei Federal nº 14.113/2020.
O prejuízo dessa manobra recaiu de forma brutal sobre as finanças do município. Ao insistir na nomeação antidemocrática de gestores atrelados à hierarquia militar, a gestão anterior provocou a inabilitação técnica de Parnamirim perante o Ministério da Educação (MEC) e o FNDE. Estima-se uma perda em torno de R$ 11,6 milhões em repasses federais extras, recursos que deveriam ter financiado a atualização linear do piso salarial dos professores, a recomposição das gratificações e melhorias urgentes na infraestrutura das escolas periféricas. A militarização funcionou apenas como marketing reacionário, drenando o caixa da rede e penalizando diretamente os trabalhadores da educação.
No plano estritamente pedagógico, os próprios índices oficiais desmentem a tese de que a presença militar alavanque o rendimento escolar. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, a Escola Municipal Manoel Vicente de Paiva permaneceu na rabeira da rede pública, ocupando a 33ª posição entre as 36 escolas municipais avaliadas em 2025. O tímido avanço de 3,7 (em 2023) para 4,1 (em 2025) empalidece diante dos saltos obtidos por escolas de gestão puramente civil no mesmo período: a EM Jornalista Rubens Manuel Lemos subiu de 4,7 para 6,5 (+1,8 ponto), a EM Profª Eva Lúcia Bezerra de Mendonça saltou de 3,8 para 5,5 (+1,7 ponto), além dos ganhos expressivos em unidades como a EM Alzelina de Sena Valença e a EM Professora Iris de Almeida Matos.
Nos Anos Finais, a Escola Municipal Senador Carlos Alberto de Souza aprofundou a instabilidade institucional. Em 2023, a unidade alcançou nota 4,0 no Ideb, ficando consideravelmente distante da meta projetada de 4,7. Em 2025, a escola sequer obteve indicador calculado e divulgado pelo Inep, reflexo de problemas crônicos de fluxo escolar e da baixa taxa de participação discente nas provas censitárias. O arranjo fardado não assegurou sequer a conformidade técnica das avaliações oficiais.
A demonstração cabal de que a disciplina e o rigor metodológico não demandam aparatos militares reside no topo da rede municipal: a Escola Municipal Nossa Senhora da Guia alcançou a nota 7,0 no Ideb de 2025 (após registrar 5,9 em 2023), operando sob uma gestão estritamente civil regular. Fica evidente que o compromisso formativo, a estabilidade do trabalho docente e o foco pedagógico superam qualquer modelo baseado em coerção disciplinar externa.
A superação dos desafios educacionais de Parnamirim exige romper tanto com a ilusão militarista quanto com o fetichismo tecnocrático de planilhas. A verdadeira transformação do ensino público é indissociável da gestão democrática, da valorização dos educadores e do enfrentamento das raízes materiais da desigualdade que atingem a juventude trabalhadora fora e dentro dos portões da escola.
NOTA EDITORIAL
Este artigo inaugura o acompanhamento crítico e investigativo que o Blog Político Social manterá sobre as políticas públicas em Parnamirim. Analisar a rede municipal sob a perspectiva materialista e filosófica exige confrontar a retórica do poder com a realidade do chão da escola. A opção pela tutela militar e pela hierarquia rígida abre um debate mais profundo, que aprofundaremos em publicações futuras, sobre os limites da obediência cega e da disciplina autoritária, dialogando com as reflexões da autora sobre o autoritarismo e a clássica análise em torno do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém a respeito da burocracia do dever e da anulação do pensamento crítico. Nosso compromisso é monitorar e desmistificar os impactos dessas escolhas no cotidiano da classe trabalhadora de Parnamirim.
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